Marcha irresistível
De onde ele tira essa cadeira? É o que perguntam baixinho os vizinhos que passam por esse senhor de chapéu.
Antes ficava parado em pé, no meio da calçada. Não parecia ter nenhum objetivo específico. Olhava.
Depois de algum tempo, se virava para a outra direção, e continuava a observar. O que ele procurava?
Agora, arranjou uma cadeira e a cada dia a coloca em frente a um desses estabelecimentos. Concentra-se nesta quadra, entre uma rua com uma grande ladeira e uma avenida. Caso fosse mais jovem, já teria memorizado a dinâmica da comunidade.
Dona Ângela sai às 7h da manhã, com Bebel em seu carrinho de bebê. Bebel já tem 15 anos, mal percebe os passeios, mas já faz parte da rotina. Buscar um pão do português, dar bom dia para o Seu Leo da banca, às quartas esticar um pouco até a Celeste e pegar um arranjo de rosas e cravos amarelos.
Saberia que Alberto logo passaria por ali, sempre sério, com colônia barata, para correr atrás do ônibus. E só retornaria às 20h, com a colônia já gasta e misturada com cigarro, suor e fuligem.
Talvez até arrumasse a sua postura e ajeitasse o chapéu, antecipando a vinda de Gisele. Com seus cachos finalizados dedo a dedo pela manhã, ocupando a calçada, a rua e os pensamentos do bairro inteiro. Bolsa de couro bem presa ao corpo. Sorriso de fim de semana, em plena segunda-feira.
Quem sabe virasse o rosto para evitar contato visual com Rogério, sabendo que cruzar os olhos com ele significaria ser enredadado em suas tramas intermináveis, de um passado maravilhoso.
Guardaria pirulitos para as crianças que choram, vão para a escola e crescem. Sempre são muitas, com a mesma voz esganiçada, pedidos de colo e curiosidades encantadoras.
Essas pessoas e histórias passam como borrões por ele, assim como os minutos, as horas, os dias, os meses e os anos que lhe restam. E ele fica ali, entre a quitanda, a loja de bijuterias e o ponto de táxi. Observa.



Adorei!